Computação cognitiva representa a computação que embute “inteligência” suficiente para efetuar tarefas que antes apenas humanos conseguiam fazer.
computacao cognitiva
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Recentemente fiz uma palestra sobre tendências e concentrei o tema na chamada computação cognitiva, que talvez não seja o nome mais apropriado, mas representa a computação que embute “inteligência” suficiente para efetuar tarefas que antes apenas humanos conseguiam fazer. Fiz questão de enfatizar que outras tecnologias como mobilidade, cloud computing, big data e Internet das coisas já não são mais tendências e nem emergentes, mas fazem parte da nossa vida. A ‘appficação’ da sociedade já é um fato e só vai aumentar nos próximos anos.

Em cloud computing não estamos mais discutindo se vamos, ou não; mas estamos tentando explicar porque ainda não fomos – muitas vezes agarrados a paradigmas que perderam sua essência. O big data já é o cerne de negócios como Google, Facebook, Linkedin e em muitas empresas de varejo, transporte aéreo, bancos etc. Já existem ao redor do mundo muitos casos de sucesso na geração de insights e inteligência a partir da exploração de dados e qualquer sistema de e-commerce que se proponha a ser medianamente inteligente deve embutir algoritmos de recomendação em sua operação. A Internet das coisas já está na nossa vida. Basta ver como os aviões, navios e automóveis estão cada vez mais automatizados. Os automóveis estão caminhando rápido para serem veículos autônomos ou quase autônomos e dirigir, na próxima década provavelmente será uma tarefa opcional. Veículos autônomos, interagindo uns com os outros vão eliminar sinais de tráfego, por exemplo. Talvez até mesmo os seguros de veículos como feitos hoje poderão ser considerados dispensáveis… Talvez hoje a principal barreira não seja a tecnologia embarcada, mas a regulação de como tornar esta automação viável na nossa sociedade. A tecnologia embarcada neles, ainda cara hoje, tende a baratear dramaticamente nos próximos anos. Vejam que a discussão já não está mais na questão de se é possível ou não um carro autônomo, mas de regulação. Este texto é bem interessante.

E quanto à computação cognitiva? Lembro que em 2004 (há dez anos…) li um livro que me chamou muito a atenção. O titulo é “The New Division of Labor: How Computers Are Creating The Next Job Market”, dos economistas Frank Levy e Richard Murnane. Diante da acelerada evolução tecnológica, os autores argumentaram que os computadores assumiriam o lugar das atividades humanas em muitas tarefas, mas não poderiam operar em outras. As tarefas que envolvessem percepção sensorial, reconhecimento de padrões e conhecimento conceitual continuariam exclusivas dos seres humanos. Eles fizeram a distinção entre conhecimento tácito e explícito. O explícito, ou declarativo, poderia ser expresso via instruções orais ou escritas e, portanto, programáveis. Os computadores poderiam assumir todas as tarefas explicitas. Já o conhecimento tácito refere-se a tudo aquilo que fazemos mas não conseguimos claramente definir como fazemos. Aprendemos e internalizamos o conhecimento (como dirigir um veiculo, por exemplo). Mesmo que consigamos explicar como fazer uma ultrapassagem, dificilmente alguém repetiria exatamente nossas ações. Não existe uma receita simples e declarativa para estas tarefas. Assim, o conhecimento tácito continuaria inerentemente humano. O carro do Google rompeu estas barreiras. E novos sistemas de interface e diálogo em linguagem natural como o Siri, Cortana, Google Now e o Watson quebram mais uma vez a barreira entre o tácito e o explícito.

Os sistemas cognitivos são o resultado da convergência de avanços significativos em vários ramos da ciência da computação, como hardware (processadores e storage mais poderosos e baratos), processamento de linguagem natural, “machine learning, como redes neurais”, reconhecimento de padrões etc. Recomendo a leitura de um livro muito interessante que aborda esta questão: “The Second Machine Age: work, progress and prosperity in a time of brilliant technologies”, de Erik Brynjolfsson e Andrew McAfee. Estes sistemas têm o potencial de criar rupturas nas empresas e na sociedade, mudando inclusive a natureza do trabalho. Não são só as tarefas explícitas que podem ser automatizadas, mas as tácitas também (um veículo autônomo, por exemplo, pode dispensar o motorista). O vetor resultante cria um impacto potencial significativo na nossa sociedade.

Atividades efetuadas hoje por indivíduos, como atendimento em call center e suporte administrativo, podem ser inteiramente substituídas por estes sistemas. Também não seria inimaginável pensar que diversas tarefas ligadas a setores como educação, direito e saúde também poderiam ser efetuadas por sistemas “inteligentes”. Alguns exemplos de como isto está começando a se tornar realidade podem ser vistos no texto do Memorial Sloan-Kettering Cancer Center, que aborda como a computação pode ajudar na medicina (no caso oncologia), e nas empresas de serviços de saúde, como na aprovação de exames especializados (podemos ver aqui). Ambos são casos de uso do Watson, da IBM.

O exemplo da computação “inteligente” ajudar no diagnóstico médico muda nossa maneira de ver as coisas. O sistema auxilia no diagnóstico acessando mais de 600 mil relatórios de evidência médica, dois milhões de páginas de texto de 42 publicações especializadas em câncer e 1,5 milhão de registros e exames de pacientes. O sistema compara cada sintoma de cada indivíduo, sinais vitais, histórico familiar, medicamentos já aplicados, genética e rotina diária (como alimentação e exercícios) para diagnosticar e propor um plano de tratamento específico. Muito difícil para qualquer médico conseguir analisar tal volume de informações para cada paciente. Na área do direito, um sistema cognitivo pode analisar milhões de casos precedentes para descobrir e recomendar uma linha de ação. Talvez não seja mais necessário uma legião de estagiários para fazer tal tarefa…

Claro, chegar lá não é simples, como mostra as primeiras experiência na área, por exemplo, com o Watson. Mas, há dez anos tal tarefa era considerada fora do escopo da computação e agora estamos discutindo qual seu grau de eficiência. Um avanço e tanto em meros dez anos. O desafio é que as mudanças acontecem em ritmos cada vez mais acelerados. Há uns 20 anos apenas 3% da população mundial tinha celulares e uma ínfima parcela de 1% acessava a Internet. Há dez anos não existiam iPhone, iPads, Facebook, YouTube e Twitter. O fato do Watson não acertar tudo, ou o Siri tropeçar nas respostas, não significa que daqui a poucos anos sua margem de acerto não será imensamente maior.

Portanto, devemos estar preparados para as tecnologias futuras. Precisamos entender como elas mudarão a sociedade, a economia e a forma de atuação das nossas empresas. A destruição criativa, como disse Joseph Schumpeter, continua ativa. Desloca empresas e setores consolidados e cria aberturas para novos modelos de negócio. As tecnologias como a computação cognitiva já não estão mais no campo da ficção cientifica, mas na questão de quando e em que intensidade vão transformar nossas organizações.

Nesta e nas próximas décadas os executivos de negócio devem compreender e usar a tecnologia como força de ruptura nos seus negócios. O mundo evolui na velocidade da Internet e tentar se segurar com a ilusão que “meu negócio é estável e não vai mudar, pois não mudou nos últimos anos”, provavelmente não o protegerá da inevitável transformação. A combinação do efeito de múltiplas tecnologias que evoluem rapidamente afetará todas as empresas e criará mudanças significativas na natureza do trabalho atual. Novas capacitações serão requeridas e novos modelos de negócio surgirão. Estamos nos preparando?

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